Backpacking Two

Receita Para Acordar Sem Despertador!

4 Comentários

(Ou, como escrever um texto de “autoajuda” sem incluir aqueles enervantes “dez passos para a felicidade”… e por “autoajuda” digo que estou provavelmente ajudando mais a mim mesmo do que a quem lê.)

(Ou, ainda, porque resolvi “chutar o balde” e mochilar mundo afora no que deveria ser o começo da minha carreira profissional pós-universidade…)

[E, antes de você deslizar o cursor até o final (se ainda não o fez…): sim, este texto é relativamente longo e ele inclui incontáveis parênteses, e inclusive alguns colchetes (que se estiverem dificultando muito a leitura, podem ser ignorados em prol da fluidez, como se fossem apostos), além de fundamentadas opiniões inequivocamente de cunho pessoal e parcial, esteja avisado(a)! (Ah, e quando me refiro a você, leitor, ao longo do texto estou, na verdade, referindo-me a mim mesmo…)]

Pôr do sol em Pai, na Tailândia. (Dezembro, 2014)

Pôr do sol em Pai, na Tailândia. (Dezembro, 2014)

Acordar a hora que se bem entender e não ter que esticar o braço para olhar as horas no celular: não há motivo (à título de curiosidade, geralmente costuma ser lá pelo meio-dia, uma hora da tarde)! Acordar e se esforçar para lembrar qual é o dia da semana. Quem dirá do mês! Ou, melhor ainda, não se esforçar nem um pouco para se lembrar de nada disso (à essa ‘altura de campeonato’, não se passa de uma vaga lembrança de que horas e datas se marcam com números e datas e não com pessoas ou lugares)… Não se esforçar. Simplesmente acordar sem qualquer motivo a não ser o fato de que se dormiu o tanto necessário. Dormir o suficiente! Se levantar da cama sem motivo, a não ser a sua vontade de sair e ver o mundo (além daquela necessidade excruciante de fazer xixi, claro!). Sair da cama e ser transbordado pelo novo, pelo diferente. Um turbilhão de novos cheiros, sabores, experiências, emoções, sons, idiomas incompreensíveis e sensações nada familiares, ainda que reconfortantes. Acordar e sorrir. Sorrir ao acordar.

O templo Wat Xieng Thong em Luang Prabang, no Laos.

O templo Wat Xieng Thong em Luang Prabang, no Laos. (Junho, 2015)

Viajar, para mim, não se trata de viver a vida intensamente, ou mesmo de viver pelo momento, ‘carpe diem’ e coisa-e-tal. Assim como a vida em si, isso tudo tem prazo pra acabar, bem como qualquer outro momento pelo qual já se passou (já dizia George Harrison: “all things must pass”). Trata-se, talvez, de viver a vida que se quer viver. Não a vida que se acha precisar viver. E, claro, apesar de tudo isso parecer completamente piegas, clichê e ‘autoajuda’, acho que o maior clichê de todos talvez seja viver uma vida escrava de convenções. Muitas vezes, até mesmo reprimidas e deliberadamente inquestionadas, seja para negá-las ou confirmá-las. Obrigações não somente impostas, mas acima de tudo… aceitas.

Mergulhando em Nha Trang, na costa do Vietnã! (Abril, 2015)

Mergulhando em Nha Trang, na costa do Vietnã! (Abril, 2015)

Antes de qualquer coisa, permita-me deixar algo o mais claro possível: não acho que viver a vida como ando vivendo esteja certo. Mas, também não acho que esteja errado. Veja bem, uma vida “bem-vivida” depende unicamente de quem e como a observa, independentemente se é a própria pessoa, a família, amigos, a sociedade ou um desconhecido anônimo em comentários na Internet. Do meu ponto de vista, “viver bem” significa estar de bem com a vida que se vive… por mais fácil que essa frase possa ressoar, todos sabemos não ser uma saga muito esclarecedora ou óbvia. Afinal de contas, quem tem a definição inerente, inata e imutável do que é certo ou errado? Cabe a cada um decidir por si só o que acreditar ou não, seja do ponto de vista legal, moral, social, espiritual, etc… Conflitos derivam, em sua maioria, dessa presunção: todos acham que eles próprios estão certos enquanto que, concomitantemente, acham que todos os outros estão errados (salvo aqueles que arbitrariamente dizem que também estão certos, mesmo que eles ‘coincidentemente’ pensem exatamente como eles próprios). Como funciona essa contradição?! Ok, esta é a lógica vigente: “eu estou certo e todos os outros, errados”. Mas, como aplicar esta lógica a cada ser pensante? Pois, se todos estão certos, então todos estão, ao mesmo tempo, errados… e vice-versa, não?! (“Ahn?”)

É fácil julgar os outros por suas diferenças, não? Mas, toda moeda tem, no mínimo, duas faces... Aldeia das

É fácil julgar os outros por suas diferenças, não? Mas, toda moeda tem, no mínimo, duas faces… Aldeia das “mulheres-girafas”, em Chiang Rai, na Tailândia. (Dezembro, 2014)

Nossas visões de mundo se resumem àquelas perspectivas com as quais julgamos nos enquadrarmos. Mas, isso implica necessariamente que todas as outras formas de se pensar e viver estejam erradas? Penso eu, Breno, portanto, que não existe um jeito certo de se viver… assim como não existe um jeito errado! A subjetividade e a relatividade pregam papéis importantes nessa presunção. Claro, todas as nossas ações em uma sociedade gerarão consequências condizentes com os estatutos morais e legais que a regem e nós somos todos submetidos a essas consequências enquanto concordarmos (há realmente escolha?!) em conviver dentro da mesma (sociedade). Mas, o que isso quer dizer do certo ou errado? Pra ser bem sincero, não faço a mínima ideia! Apenas que não vejo necessidade de concordar com a moralidade vigente pura e simplesmente porque ‘sempre-foi-assim’ ou porque ‘é tradição’. Mas, não se confunda: isso difere fundamentalmente de quebrar a Lei, um dispositivo instituído e aplicado (ao menos em teoria) a todos que numa sociedade são considerados seus cidadãos (quer eles queiram ou não!).

Os vietnamitas são muito orgulhosos por terem vencido a guerra contra a invasão injustificada dos Estados Unidos durante os anos '60/'70. Torre da Bandeira em Hanoi, capital do Vietnã. (Maio, 2015)

Os vietnamitas são muito orgulhosos por terem vencido a guerra contra a invasão injustificada da França e dos Estados Unidos durante os anos ’60/’70. Torre da Bandeira em Hanói, atual capital do Vietnã. (Maio, 2015)

Mesmo o pensamento crítico de que falo não passa de uma hipócrita falácia: afinal, críticas também são subjetivas e, portanto, sujeitas a um observador e a um observado, sejam qualquer um deles de teor concreto ou abstrato. A moralidade, dessa forma, está sujeita a muitas mudanças e a muitas perspectivas, inclusive, e principalmente, dentre ela mesma (por mais que estas tendem a ser sutis, graduais e desenroladas, em sua maioria, sob a pressão de fortes resistências conservadoras à elas! Por quê as pessoas temem tanto mudanças?). Mas, mais ainda, a moralidade está sujeita à maior mudança de todas: a mudança de perspectiva. Não existe moralidade constante, atemporal, universal (por mais que os fundamentalistas insistam em rebater que a deles o é) porque não existe apenas uma maneira de se pensar (ou viver!). Nada garante que o que é considerado certo ou errado hoje também fosse/será considerado certo ou errado numa sociedade há muitos anos e/ou quilômetros (e/ou anos-luz?!) de distancia da moralidade a qual se toma por base (chamo essa ‘presunçosa garantia’ de “moralidacentrismo”, ou talvez ‘etnocentrismo’ ainda se encaixe e eu estou a inventar palavras por mero descaso e prazer). Exemplos históricos disso não faltam: escravidão, pena de morte, aborto, sexualidade, palmatória, expressão artística, vocação religiosa, acesso ao estudo, mutilações, etc.

A famosa Casa Louca, em Da Lat, no Vietnã, quase foi derrubada num acesso de fúria dos moradores que discordavam da sua existência puramente porque ela não estava seguindo o

A famosa Casa Louca, em Da Lat, no Vietnã, quase foi derrubada num acesso de fúria dos moradores que discordavam da sua existência puramente porque ela não estava seguindo o “padrão” municipal, que é o colonial francês. (Abril, 2015)

Dessa forma, se sentir culpado por acordar tarde (quem o faz sabe do que falo!) nada mais é que um reflexo de uma sociedade que impôs/impõe um horário arbitrário que julga “adequado” para acordar. Não que acordar cedo seja errado, mas acordar tarde também não o deveria ser, ao menos não moralmente. Uso esse exemplo apenas para melhor visualizar o meu argumento: não deveríamos todos acordar a hora que quiséssemos?

Show pirotécnico na praia no meio da madrugada de Koh Tao, na Tailândia. (Janeiro, 2015)

Show pirotécnico na praia no meio da madrugada de Koh Tao, na Tailândia. (Janeiro, 2015)

(Re)Produzir e se sentir um indivíduo contribuinte para a sociedade em que se vive deveria ser uma escolha, não uma obrigação (pois, pelo menos pra mim, a palavra obrigação também vem carregada de várias outras, como ressentimento e desmotivação). Não me expressei bem o suficiente? Outro exemplo talvez ajude: quando uma pessoa nasce, automaticamente se torna um cidadão” (com todos os direitos… mas, principalmente com todos os deveres!) de um lugar ‘fabricado’ por linhas imaginárias e por convenções (em sua maioria escritas por punhos gananciosos e com sangue de inocentes) que as mantêm em seus devidos lugares (ai ai, antes fosse assim tão simples como resumi…) e que hoje chamamos de uma Entidade/Instituição/Estado conhecida como ‘país’. E isso acontece sem que o indivíduo tenha direito de escolha ou voto (cadê a tão proclamada liberdade garantida pela democracia de que tantos falam?!)!

“Tubing” rio abaixo em Vang Vieng, no Laos. (Junho, 2015)

O problema (ou talvez a solução?! Causa e efeito, contrariamente aos valores que hoje regem, se diluem e se confundem incessantemente…), sobrepõe-se sobre a relatividade dessa frase: o que diabos é “(re)produzir”? Se antes era um pouco menos complicado entender a “necessidade do trabalho”, essa compreensão talvez tenha sido um pouco mais ofuscada pela burocracia irrisória, pelo consumismo exacerbado e desenfreado que vivenciamos hoje e a constante luta pela obtenção desse “Ser Mí(s)tico” chamado de ‘Lucro’ (e pela ‘tranquilidade’ de alcançar o final de cada mês sem ter que ficar torcendo para não terminar no vermelho), onde o que temos sobrepõe-se e mescla-se ao que vivemos. Não se trabalha mais pela subsistência; trabalha-se pela ‘existência’: ambos viraram sinônimos. Profissão e identidade se confluem e se confundem (ao conhecer uma pessoa nova é praticamente inevitável que a segunda pergunta, logo após o nome, seja: “E o que você faz?”). A expressão (essa já virou clichê?) se encaixa: deixamos de “trabalhar para viver” e passamos a “viver para trabalhar”. Quando houve essa mudança? (Houve de fato uma mudança?) A vida, então, se resume ao trabalho? Por que levanto este tipo de questionamento você me pergunta, leitor?

Mochileiros com mochilas nas costas, assim que chegamos em Bangkok! (Novembro, 2014)

Mochileiros com mochilas nas costas, assim que chegamos em Bangkok, Tailândia! (Novembro, 2014)

[Importa-se se eu fizer um pequeno ‘detour’ de pensamento aqui? Relendo, percebi que ‘viajei’ um bom tanto em números, mas achei a viagem interessante o suficiente para sobreviver à minha impiedosa edição pós-texto e achar que vale compartilhá-la contigo, já que a maior parte das pessoas não pára muito para pensar sobre isso.] Vamos lá! De um dia que possui vinte e quatro horas, em média, no Brasil, a jornada de trabalho varia de seis a nove horas. Dorme-se (ou deveríamos) de sete a oito horas por noite (ou dia!)… restando-nos, ainda arredondando, de seis a oito horas de tempo livre.

O luxuosíssimo cassino em Kampot, no Cambódia, foi fruto de árduo trabalho e hoje se encontra abandonado. (Março, 2015)

O luxuosíssimo cassino perto de Kampot, no Camboja, foi fruto de árduo trabalho e hoje se encontra abandonado, antes mesmo de ter sido concluído. (Março, 2015)

Isso quer dizer que um terço da nossa vida adulta se passa dormindo, outro terço se passa trabalhando e o terço restante é para “lazer” (deslocamento até o trabalho, cozinhar, limpar a casa, fazer compras, ir ao banco, cuidar da higiene, etc…, tudo incluso! Acho que a maioria das pessoas acha a maioria disso tudo nem um pouco prazeroso!). De tempo livre mesmo, nos resta apenas umas quatro ou cinco horas, sendo otimista… (Quantas horas livres você tem por dia?!) Das quais, quantas se passam “descansando porque hoje o dia foi puxado”? E isso se repete durante cinco (ou seis!) dos sete dias da semana. Onze, dos doze meses do ano (isso se você não vender parte das suas férias pra “sobrar mais um dinheirinho no final do ano”! Aliás, o que você faz durante suas férias?! “Descansa do stress do trabalho”?!). Durante pelo menos trinta e cinco anos, no mínimo (por tempo de contribuição, segundo o art. 53, I, II,  da Lei 8.215/91). Não se esquecendo de que estudamos (ou ao menos deveríamos por lei!), no mínimo, até os nossos dezoito anos.

A vista que tínhamos do nosso bangalô em Koh Samui, na Tailândia. (Janeiro, 2015)

A vista que tínhamos do nosso bangalô em Koh Samui, na Tailândia. Nada mal por 45 reais a noite, não?! (Janeiro, 2015)

Quem continua seguindo rumo ao Ensino Superior seguindo a promessa de uma ‘carreira’, costuma só ingressar formalmente no mercado de trabalho entre os vinte e três e vinte e cinco anos [Numa subnota: cresci escutando que não precisava trabalhar (tive ‘sorte’ ao nascer!) porque “o estudo era o meu trabalho”… interessante, né?! Hoje em dia reconheço a sabedoria por trás dessas palavras!]. Isso significa que passam-se vinte e cinco anos se ‘preparando’ [ou você ainda acha que escolas tradicionalmente têm alguma outra função além desta? Olha, não que eu tenha algum problema com os estudos em si… de forma alguma! Meu problema recai sobre a forma como a escola emprega todos esses anos das nossas vidas… Sua escola te instigava o pensamento crítico e novas formas de vive(ncia)r o mundo ao seu redor ou simplesmente te ‘moldava’ para passar no vestibular e, consequentemente, para adentrar no mercado de trabalho] para se regurgitarem adentre de si mesma um “cidadão contribuinte para a sociedade”.

O tão famoso Angkor Wat em Siem Reap, no Cambódia. Como será que era contabilizada a

O tão famoso Angkor Wat em Siem Reap, no Camboja. Como será que era contabilizada a “produção” no século XII por essas bandas? (Fevereiro, 2015)

Ainda não sabe do que eu estou falando? Eu tento me esclarecer: esse “cidadão contribuinte” é aquele número que realmente importa ao governo (qualquer um que seja e de qualquer suposta inclinação dentro dessa ilusória e maniqueísta, como a maioria dos outros preceitos que nos apresentam o são, balança política de “esquerda/direita”): a porcentagem da população que é considerada “economicamente ativa” (vai ver em quê eles se baseiam primordialmente, ainda que implícita e veladamente, quando discutem sobre o aumento do tempo de serviço antes da aposentadoria, o valor do salário mínimo, a inflação, o acesso à saúde pública, o valor da própria aposentadoria e etc…!). Ou seja, quem se enquadra nessa porcentagem é quem faz as “engrenagens girarem” e a sociedade a continuar sendo o que ela sempre foi: subjulgadora do indivíduo “em prol do ‘bem-maior’ ” (que eu ainda estou pra descobrir/entender qual é! Você tem alguma ideia de qual seja?).

No templo Wat Mahathat. Diante das ruínas da capital de um antigo e poderoso reino em Ayutthaya, na Tailândia. Qual será o

No templo Wat Mahathat. Diante das ruínas da antiga capital de um poderoso reino em Ayutthaya, na Tailândia. Qual será o “bem-maior” que eles buscavam? (Dezembro, 2014)

Então, péra lá… levando-se todos esses números daí de cima em conta chegamos a: vinte e cinco (de estudo) mais trinta e cinco (de trabalho) equivalem a… assustadores sessenta anos (isso se não houverem anos extras nessa conta, tanto num quanto n’outro quesito!). [Acho curioso também que a delimitação entre as ‘fases do desenvolvimento humano’ coincidem muito proximamente com esses números (e que a maior e mais longa dessas fases em termos de anos e décadas, a vida adulta, seja também a que nos enquadram naquela porcentagem ali de cima, a da “população economicamente ativa”!)]. [Noutra subnota ainda (desculpe, sei que fragmenta muito o texto) tomando-se por exemplo: após tantos anos de “dedicada prestação à sociedade”, sabia que o município tem autonomia federal e estadual, estabelecida pelo Estatuto do Idoso (art. 39,  da Lei 10.741/03) para decidir entre os sessenta ou os sessenta e cinco anos de idade para deixar de pagar passagem para andar de ônibus nos ‘anos dourados’? No município em que nasci e fui criado (Uberlândia, MG) decidiram por sessenta e cinco (óbvio!), e no seu?] Olha, não que eu ache o mundo “justo por natureza” (por que não acredito nisso…), mas, te soa razoável?! E você, conhece muitas pessoas se aposentando aos sessenta (ou antes disso ainda?!)? A maioria das que conheço segue trabalhando muito além dessa faixa etária… (isso sem contar as que se aposentam e logo arrumam outra função porque já não sabem mais “ficar sem fazer nada” ou pra dar “aquela completada na renda mensal”).

Andando de elefante no norte da Tailândia. Qual será a idade de aposentadoria dele? (Dezembro, 2015)

Andando de elefante no norte da Tailândia. Qual será a idade de aposentadoria dele? (Dezembro, 2014)

E vem cá, depois desse tanto de números e divagações, sabe qual é a expectativa de vida do brasileiro? E se eu te dissesse que o valor, apesar de estar gradativa e lentamente subindo há décadas, ainda se queda na casa dos setenta? (Ironicamente, sabe o que faz esse número subir? Não, não é a medicina que avança e a suposta elevação da “qualidade de vida” que nos faz viver mais longamente… não. Um dos principais fatores é a redução da mortalidade infantil através da profusão de medidas simples e básicas como saneamento básico, acesso a uma nutrição adequada e melhores investimentos na conscientização da população.). Quer o número exato? Não passa nem de setenta e cinco: 74 anos, 10 meses e 24 dias (2013) [quantos anos você gostaria de ter nessa vida? E quantos anos você acha que ainda terá? (Sim, são duas perguntas bem distintas!) Com quantos fatores, biopsíquicos, os agentes de saúde nos bombardeiam de informações (algumas vezes até mesmo contraditórias) diariamente dizendo que influenciam constantemente para aumentar esse valor (será que estão mesmo preocupados com o nosso bem-estar? Ou somente em prolongar o nosso tempo de “vida-útil” para a sociedade?)? Você é sedentário, se alimenta mal, vive estressado, se droga lícita ou ilicitamente (medicamentos, beber e fumar inclusos, viu!), se priva de sono? Estatisticamente, sua expectativa de vida só tende a cair com cada estilo de vida adotado.].

Após alguns minutos de caminhada por uma trilha bem extenuante, chega-se ao Mirante John-Suwan, em Koh Tao, na Tailândia. (Janeiro, 2015)

Após alguns minutos de caminhada por uma trilha bem extenuante, chega-se ao Mirante John-Suwan, no extremo sul da ilha de Koh Tao, na Tailândia. (Janeiro, 2015)

O que, subtraindo daqueles sessenta, nos resta 14 anos… essa é a quantidade de tempo que temos para, como diz o ditado, “curtir a aposentadoria”?! Parece-te justo? Acha 60/14 anos uma boa relação “custo/benefício” para a sua vida? Um pouco mais de quatorze anos para “saborear os espólios” em troca de sessenta de “treinamento e trabalho árduo e duro” (vestindo a camisa e dando tudo de si, como nos é cobrado diariamente!)?! Nessas horas, sempre me lembro daquela ‘piada’ envolvendo a tríplice da qual só se pode ter dois: quando se é jovem se tem tempo e energia, mas falta dinheiro; quando se é adulto, se tem dinheiro e energia, mas falta tempo; e, quando se é velho, se tem tempo e dinheiro, mas falta energia. Hahahahahahahaha… ha, ha, ha. Muito engraçado! Adoro quando sou o sujeito de piadas!

Pôr do sol visto do nosso hotel em Sihanoukville, no Cambódia. (Março, 2015)

Pôr do sol visto do nosso hotel em Sihanoukville, no Camboja. (Março, 2015)

Bom, como eu havia defendido antes (e reitero aqui!), não sei se isto está certo ou errado… mas, me parece ser como a maioria das pessoas julgam que se deve levar uma vida “bem-vivida”… Pois bem, assim como boa parte dos outros aspectos implícitos e impostos (goela abaixo!) para uma vida em sociedade, acho esse (para mim, Breno) também errado! Talvez um dos que mais me indignam.

A Velha Ponte Japonesa em Hoi An, no Vietnã central, toda iluminada para celebrar (durante uma semana) os 40 anos desde a reunificação do país. (Abril, 2015)

A Velha Ponte Japonesa em Hoi An, no Vietnã central, toda iluminada para celebrar (durante uma semana) os 40 anos desde a reunificação do país. (Abril, 2015)

Então, toda vez que levantam-se as sobrancelhas e caiem-se os queixos quando afirmo sem resquício de remorso ou preocupação que meu horário de dormir é, geralmente, quando nasce o sol, não me abalo. Nem me surpreendo. (Tanto menos quando me lançam olhares de desprezo e “julgamento inferiorizante”, ao menos é isso que emana de seus olhos ardentes, como se os tivesse ofendido por pensar diferente, quando confesso, geralmente com muita hesitação e rodeios, que não acredito no trabalho duro… e muito menos na falsa noção de que todos têm oportunidades hoje em dia e que “quem realmente o quiser, chega lá!” Seja lá onde quer que esse “lá” se encontra. Às vezes acho que na cabeça da maioria das pessoas talvez seja numa posição de considerado respeito e prestígio perante seus conhecidos, com um salário condizente e, obviamente, bem acima da média brasileira, definitivamente acordando bem cedo, de preferência).

Taí um dia em que tive que acordar bem mais cedo que de costume: o período de visita ao Palácio Real da Tailândia se encerra às quatro da tarde... portanto, para dar tempo de ver tudo tivemos que

Taí um dia em que tivemos que acordar bem mais cedo que de costume: o período de visita ao Palácio Real da Tailândia, em Bangkok, se encerra às quatro da tarde… portanto, para dar tempo de ver tudo tivemos que “madrugrar” às 10 da manhã! (Novembro, 2014)

Ignorando-se fatores evolutivos e considerando-se somente os sociais, afirmo que sim, assim como gosto de acordar sem despertador, minhas horas mais produtivas (sem aspas agora! A noção do que constitui “produção” também é subjetiva) se discorrem quando a maioria das pessoas repõe suas energias. Mais uma ode à noite?! Talvez… mas, gosto de pensar que é mais uma reflexão do que uma afirmação. Uma indagação, não uma rejeição. Veja bem, não rejeito a sociedade (ao menos ainda não!). Assim como não rejeito o trabalho, de forma alguma! Se você, leitor, entendeu isso, então está por colocar “palavras nas minhas linhas”.

O Templo Branco, ou Wat Rong Khun, de Chiang Rai ainda é fruto de bastante controvérsia, desde sua construção em 1997. (Novembro, 2014)

O Templo Branco, ou Wat Rong Khun, de Chiang Rai, na Tailândia, ainda é fruto de controvérsia, desde sua construção em 1997. (Novembro, 2014)

Não me entenda errado: o que rejeito mesmo é o preceito de que “o trabalho dignifica o homem” (quantas vezes você já foi trabalhar mesmo doente?). Me parece que esse preceito anda bem fortificado na nossa sociedade/moralidade. Não acho legal ter que trabalhar para pagar as contas (ou você acha? Aliás, qual o seu maior gasto mensal?). O que há de mal em relaxar? Por que é tão errado querer curtir a vida? “Vagabundo! Só quer saber de botar os pés pra cima! Preguiçoso! Trabalhar duro pra virar alguém na vida não quer não, né?!” Oras, por que exatamente mesmo tenho que querer (as aspas são para reforçar que não acredito na fábula da meritocracia!) “virar alguém na vida”? Status? Prestígio? Bens? Boas aparências? “Segurança financeira”? (Você se sente bem seguro quanto às suas finanças de final de mês? Você usa o seu décimo terceiro pra quê mesmo?) “Sucesso”? (E quem definiu mesmo o que isso significa?).

Cachoeiras Kuang Si, em Luang Prabang, no Laos. (Junho, 2015)

Cachoeiras Kuang Si, em Luang Prabang, no Laos. (Junho, 2015)

Talvez seja por isso que comecei a escrever este texto, há mais de 04 meses atrás, de uma rede (literalmente, uma rede mesmo, daquelas que fica presa entre duas árvores, sabe?!) numa ilha paradisíaca (Phu Quoc) ao sul do Vietnã às cinco e meia da manhã (sim, vi mais um nascer do sol… pela terceira noite seguida!).

Como diz o ditado:

Como diz o ditado: “Viajar é o melhor remédio contra o preconceito“. (Fevereiro, 2015)

Agora, já estou no meu oitavo mês de viagem. E não, não trabalhei um dia sequer durante todo esse tempo (há quanto tempo que você não faz isso? Você já fez isso alguma vez na vida depois que começou a trabalhar?)! Mal podemos contar as horas para bater o ponto ao fim do expediente;  estamos sempre torcendo para que a sexta-feira venha rápido; “aah, se aquelas férias chegassem logo…”. Me parece que vivemos vidas segmentadas, devidamente agendadas e cronometradas entre o trabalho e o tão sonhado e merecido descanso. A “vida” deixou de ser prioridade e agora só pode ser observada espremida naquele intervalo dos quinze minutinhos pro lanche ou nas férias de fim de ano com a família, tudo, claro, muito bem planejado e roteirizado que é para diminuir os gastos e garantir que nada saia da rotina a que tanto fomos doutrinados a seguir. Imagina se um imprevisto acontece e você se vê forçado a admitir que existe vida fora das planilhas, maravilhas a se vivenciar com um perrengue?! Como se a vida não incorresse enquanto trabalhamos, como se estivesse, na verdade, “em pause”…

Nada se compara à companhia da pessoa que se ama.  Principalmente quando esta também embarca na

Nada se compara à companhia da pessoa que se ama. Principalmente quando esta também embarca na sua “loucura”! Foto tirada em Pai, na Tailândia. (Junho, 2014)

E agora, oito meses depois… se me arrependo? Não. Se me arrependerei? Bem, só o tempo dirá (e você, tem certeza de que não se arrependerá da sua vida vivida?)… Mas, ao menos sempre terei guardado na memória experiências que julgo tão enriquecedoras quanto prazerosas. E olha, cá entre nós, não estou a escrever isso tudo para te passar inveja ou raiva ou indignação. Juro que não! Estou escrevendo, como já disse antes, para instigar-lhe o questionamento (talvez seja aqui, afinal, que se encaixe de fato a parte da “autoajuda”?). Isso foi o que eu julguei correto para a minha vida, nesse momento que vivo. Não estou dizendo que isso é o certo para você. Muito menos que é o certo pra todo mundo (se lembra do que falei lá em cima?!)…

Com suas quase 2000 ilhas, a Baía de Ha Long é simplesmente de tirar o fôlego! (Maio, 2015)

Com suas quase 2000 ilhas, a Baía de Ha Long, no Vietnã é simplesmente de tirar o fôlego! (Maio, 2015)

O que estou dizendo, se digo qualquer coisa, é: cabe a cada um de nós decidir por nós mesmos o que julgamos ser uma vida “bem-vivida”. Se você chegar à conclusão de que é vivendo segundo as regras morais da sociedade, oras, então vá em frente! Ninguém vai lhe impedir e muito menos colocar qualquer empecilho, afinal, seguir a correnteza sempre será o caminho menos extenuante e eu não o julgo de forma alguma por percorrê-lo! Bom pra você: tudo será bem mais fácil (tomara mesmo!)! Agora, se você tiver outra ideia… vontade de seguir outro caminho… Bem, o que (realmente) está lhe impedindo?

O Camboja também tem praias estupendas!!! Essa é a Otres Beach, em Sihanoukville. (Março, 2015)

O Camboja também tem praias estupendas!!! Essa é a Otres Beach, em Sihanoukville. (Março, 2015)

Geralmente, gostamos de culpabilizar fatores externos como os odiosos algozes que nos impedem de tentar. Mas, será mesmo que a grande barragem que lhe “prende” não vem do seu próprio âmago? Uma das principais características do medo é a paralisação. E eu te entendo: a ideia do novo, da mudança, realmente pode ser algo paralisante… tudo pode piorar, não?! Mas, outra grande reação ao medo… é a ação. É tentar, mesmo que resulte em errar. Correr atrás, mesmo que resulte em estropiar-se de cara no chão… Cabe a você fazer a sua escolha (ai os clichês me perseguem!). Porque, no final do dia (ou da noite!), quando você deitar sua cabeça no travesseiro e seus últimos pensamentos começarem a dançar por lá adentro (e eu sinceramente espero que você ainda tenha tempo para pensar e não simplesmente se apague de cansaço ou estresse antes mesmo da luz esfriar na luminária!), lembre-se que são as nossas escolhas do dia-a-dia que ressoam como música para aqueles dançarinos inusitados. Sob qual melodia você anda se deitando? E sob quais melodias você anda acordando? Ou será que suas notas se abafam por debaixo do indiferente alarme do despertador?

Da Lat, quem diria que essa pérola tão fria se encontraria tão bem encrustada no coração de um país tão quente como o Vietnã? (Abril, 2015)

Da Lat, quem diria que essa pérola friorenta se encontraria tão bem encrustada no coração de um país tão quente como o Vietnã? (Abril, 2015)

(P.s.: Quer ver e ouvir um bocado do pôr do sol numa ilha paradisíaca do Sudeste Asiático? Se você conseguir superar a minha cantoria de fundo, basta clicar aqui!)


Fotos: Arquivo pessoal.

Anúncios

Autor: Breno

Psicólogo, 29 anos, com, no momento, 27 países guardados na memória e no coração.

4 pensamentos sobre “Receita Para Acordar Sem Despertador!

  1. Pingback: Viajando Sem Data de Retorno | Backpacking Two

  2. Fantástico. Um verdadeiro artigo sobre o livre arbítrio.

    Curtir

  3. *-* o meu velho q saudade das suas ideias… texto surra de pau mole.
    Um beijo

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s